domingo, 22 de julho de 2012

Jazz Escrito

  por José Daniel Felicissimo
Jazz is all about a little tender smile on your face and some wambling around with your head; the rest is just consequence...

Às vezes, tenho debates acalorados com amigos e amigas em alguma mesa de bar perdida da cidade sobre jazz. Jazz... essa palavra sempre me soa com uma fala mansa no fundo do meu cérebro e por todos os poros da minha língua. É impressionante como ela me relaxa e me prepara para o próximo momento, o próximo golpe, gole ou talagada; a próxima vez que eu pronunciar essa palavra vai ter o seu próprio sabor, o sentimento único e desconcertante da nota seguinte.
Agora, escrever sobre jazz (ah...) é outra coisa. Nunca me aventurei dessa forma. Para falar a verdade, grande parte do que já escrevi teve como trilha sonora algo como os balbucios de Mingus no fundo da gravação, os silvos espirituais de Coltrane, as marteladas de Monk, a pegada de Hancock, as sensações ardilosas de Miles, as pinçadas folgadas de Jaco, as efemeridades de Bird, o frenesi de Blakey,... acho que eles me liberam de algo que supostamente me bloqueia; talvez, um “algo” que me afasta deliberadamente de todo o resto de coisas que eu possa vir a sentir enquanto estou rabiscando um papel, buscando me esgarçar para fora de mim (ou será que é para dentro?). Bom, o que importa é que eu já estou aqui fazendo isso que eu nunca achei possível, então só me resta gozar do momento e deixar a caneta correr pela folha. Afinal, o jazz é isso: pura e simplesmente fluir com o que você tem em mãos no presente.
Quando eu ouço um disco de jazz, o mundo ganha outras tonalidades, outras perspectivas, outros calores. O pé começa a refletir sobre os movimentos da música. É como se a música que está tocando e tudo o mais que está acontecendo naquele segundo dentro e fora da sua cabeça entrasse em sintonia. Eu fico caçando os solos que passam a correr através das minhas sinapses. É como se fosse eu o cara que está executando aqueles acordes e todos os flows que partem deles e constroem os sons que ocupam o ar naquele instante. Me pego resmungando uma ou outra parte da música como se eu a tocasse há anos. Adentro as notas e tomo conta do piano, em um momento; disparo assobios sincronizados com os disparates nervosos e frenéticos e serenos e pontuais contra as paredes para ouvi-los de volta e seguir com a música de acordo com o que eu acho necessário ou não; entro em gládio com as minhas pobres caixas de som para extrair da melhor forma possível as harmonizações do contrabaixo e devolver à melodia toda a sua força e veracidade. E a maravilha que todas as vezes me é proporcionada é que eu nunca ouço a mesma música da mesma forma, ela nunca me fornece as mesmas idéias, não me devolve de maneira alguma um estado semelhante a outro anterior. Cada vez que ouço uma determinada música, um determinado disco: é sempre especial (essencial). Mas, novamente, não de uma maneira uniforme e condensada em uma fórmula. Uma “fórmula” para a felicidade ou qualquer outro sentimento.
Me parece que a preocupação dos músicos que trabalham com jazz é, precisamente, se distanciar de qualquer postulação universal sobre a vida. A vida mesma é que faz o jazz existir, então não vale a pena tentar criar uma maneira “certa” de viver. O jazz seria um meio de se falar sobre a vida, de se comunicar com ela e com todas as oscilações que ela tem e produz para nós. Não é uma questão vetorial: se vem de dentro ou se vem de fora. O que importa é criar – coletivamente – meios de se comunicar, mesmo que não exista nada a se comunicar. É entrar em contato consigo mesmo, não importa a hora nem o lugar. Não se faz música somente quando estamos felizes ou tristes, tranquilos ou inquietos, ricos ou pobres. E aqui não se trata da convencional “ponte” metafórica que nos poria em contato com os outros, sem riscos: se vamos falar em metáforas, a que nos cabe aqui é a canoa que adentra um rio para fazer uma travessia, não se sabe para onde nem quais caminhos vão ser traçados ao certo. O que importa é assumir os riscos da empreitada. Como diria Bukowski, “se você vai tentar, vá até o fim; senão, nem sequer tente.”


Imagem: Pianist By Joe Shlabotnik

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