sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Gatinha assanhada cê ta querendo o que? Eu quero Ler...Eu quero Ler...

por Teo Oliver

Já faz um tempo, qualquer música nova dos Universitarios Sertanejos que aparece, gera uma mini e fugaz polêmica. Sempre os mesmos argumentos...machista!, objetificação da mulher!, todas as músicas são iguais!...(e os homens mais frustados ainda podem dizer: "E eles nem são tão bonitos assim!!!")

Bom, eu concordo com todos os argumentos, inclusive de que eles nem são tão bonitos assim...¬¬


Essa inquietude se manifesta entre aqueles que se julgam pensantes e por cima da música "brega" brasileira, tipicamente aqueles que comparam Vinicius de Moraes com Michel Teló. Se antes era: "Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça" sendo cantada por um tiozão, agora é "Ai se eu te pego" sendo cantada por um outro tiozão...só que loirinho. Sempre colocando o primeiro como o legalzão, e o segundo como ridículo.


Não existe discussão quanto a boa qualidade de Tom Jobim e Vinicius, nem quanto a falta de qualidade do Sertanejo Universitario e afins.


Por outro lado, é justamente nessa falta de discussão que perdemos a chance de refletir sobre o assunto. Deixo para um proximo texto os meus questionamentos dos clássicos como Vinicius de Moraes, Tom Jobin e o intocável Chico Buarque, por agora, continuemos com o Sertanejo Universitario


Se analisarmos a vida destes sertanejos em formação, na sociedade machista na qual vivemos, percebemos que eles estão falando exatamente da realidade deles. Muito mais do que NxZero, Restart, Cine e etc...(infelizmente esse etc vai longe)


Não sei se essa historia de herança que o "velho" deixou para Munhoz e Mariano é verdadeira, mas ela é perfeitamente aceitavel, verídica, ninguem contesta que o que a letra diz é exatamente o que acontece na vida real. Quer dizer, quando eles não tinham dinheiro e xavecavam as menininhas da motinha CG, elas não davam tanta bola, agora que são "ricos", "ta chovendo mulher".


O Gusttavo Lima (e você), como ja comentei num texto anterior, lavou o carro e regulou o som para pegar a mulherada...se fazendo isso deu certo, imagina agora que ele ta cheio de grana. Em sua nova música, ele declama: "As mina pira quando a gente chega na balada, fazendo rodinha com baldinho de cachaça...Pira quando a gente chega na balada, apavorando na área vip reservada"...novamente, uma constatação fria da realidade. Uma realidade triste, mas verdadeira...algumas meninas, realmente "pira" nisso ai...


É claro que eu não concordo com nada disso, tenho certeza existem coisas muito mais importantes do que carro, baldinho de cachaça, barriguinha tanquinho, peitinho decotado e bundinha a vácuo.


As meninas estão sendo objetificadas e muitas vezes parecem gostar disso, de certa forma acham que se aproveitam disso, das mesma forma que os homens se aproveitam delas. Sem perceber que com isso, estão perpetuando o paradigma machista que até hoje é vigente. Os meninos, por sua vez, continuam repetindo o comportamento hegemônico que mantém a desigualdade entre sexos...e que coloca a mulher num patamar inferior, coisificando-as até que elas se tornarem meros enfeites no ambiente. 


Mas se existe uma objetificação da mulher, também existe do homem. E eles assim como as mulheres, sabem disso e tentam tirar o maximo proveito.  Quer dizer, nós sabemos bem que para entrar nessa area Vip, o menininho tem que ter banca e gastar dinheiro à rodo, em contra partida a menina que não estiver vestida num vestidinho hermeticamente grudado, não é convidada para fazer parte disso. Vide as "delicinhas", que eles focam nesses clipes "ao vivo". É uma pena...


Entendo que o ritmo do Sertanejo Universitario é dançante e seus representantes extremamente carismáticos, mas acredito que o problema principal, na maioria das vezes, está conteúdo das letras.


Proponho que escutemos músicas que tenham um grau maior de reflexão. Mesmo que sejam do universo Pop, a exemplo do último Hit Gangnam Style do cantor sul-coreano Psy, que surpreendeu com a dançinha mais sensacional dos ultimos tempos porém com uma letra que critíca as convenções sociais de um dos bairros mais ricos da Coreia do Sul, tudo isso com um clipe super divertido que ilustra muito bem o que a letra tenta dizer.

Existe vida inteligente na música popular, em qualquer estilo na verdade...bom, talvez não em qualqueeeer estilo, em alguns fica bem dificil mesmo, qual é o nome do estilo do Latino mesmo?


Finalizo aqui com uma bem humorada música de João Carreiro e Capataz, que contam que mesmo que o povo diga que eles "canta" bem e até "toca" viola, o sucesso não vem...sai do chão Paranáááá!




Deixo lincado as músicas que citei e me inspirei para fazer o texto:


Munhoz & Mariano - Camaro Amarelo



Gusttavo Lima - As Mina Pira




Gusttavo Lima - Gatinha Assanhada


PSY - Gangan Style (강남스타일)


5 comentários:

Camilla disse...

Pior de tudo é que tenho amigas que acreditam que se nao usarem esses vestidos a vacuo , nao serao abordadas ou atraentes aos olhos alheios.
Minha leitura da sociedade é que nao existe mais auto estima, de maneira geral.
Homens e mulheres tentam uma compra/venda que nem mesmo eles acrditam. Em festas das faculdades vemos cada vez mais que mesmo os "nerds" usam roupas iguais , nuam tentativa de fazer parte de um universo que ja julgam como superficial.
Nao vejo problema com a saia curta ou a roupa a vacuo, o problema é oq de fato isso representa nos centros urbanos.
Boa parte d aminha familia veio do interior de sp e do rio grande do sul, e usar pouca roupa era super normal, por conta do calor, mas nao ficava vulgar, ou melhor, a atitude q era envolvida pelo traje era maior do q o pano, propriamente dito.
Falta de estima por si mesmo..


PS: como sempre.. adorei o post.

Marcelo Pietragalla disse...

belo artigo! e acho realmente que a questão está na discussão do conteúdo das músicas!
A música é a expressão da realidade de agora...
Mas isso mostra também uma certa pobreza simbólica... acho que ficamos muito mal acostumados com a necessidade de "mascarar" o que dizemos (por educação, por controle de conteúdo durante a ditadura militar, pq é um tabu, talvez por um valor romantico que permeava as relações, pq era pecado aos olhos da igreja, enfim todos outros motivos de recalque e que nos levam a sublimar), e criamos assim uma tradição simbólica muito bonita, bem mais bonita que o desejo latente em si... e de repente podemos dizer o que dizermos... como quisermos e esses simbolos e significados sublimados se perdem quando você desce ao nível puro do desejo mais bruto. sei lá... só divagando com um pouco de psicanálise na coisa toda.. rss
Me lembrei também de um artigo da jornalista Elaine Brum sobre as nossas eleições muito bom que eu li recentemente que eu acho que pode colaborar com essa discussão:
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/09/russomanno-e-vulgaridade-do-desejo.html

Giovanna disse...

Téo, texto muito bom ! Realmente a objetificação da mulher e do homem existe e é muito clara. Tudo como você disse descrevendo a realidade que eles ( os sertanejos) vivem. O exemplo da letra da música do Gustavo Lima, que eu realmente nunca havia nem prestado atenção é claro nisso. É a triste realidade, mas, que não deixa de ser verdadeira, infelizmente. E enquanto isso mais vestidos apertados, bundas a vácuo e novas músicas que vão estar descrevendo essa realidade. Muito bom mesmo Téo, parabéns!

Letícia Neumann disse...

Então, segue o texto da minha professora Sylvia Garcia; eu remeti á sua matéria e fiquei pensando sobre esse 'gosto' que é tido como natural das pessoas, mas na verdade é uma construção social, e esse 'estilo de vida' que elas levam acaba sendo difícil de ser alterado:

'O sentido e o interesse estéticos só existem para quem domina o código de decifração (e não a simples posse do bem cultural).
A disposição estética não é um atributo natural de indivíduos, mas uma produção histórica e social que depende das condições objetivas de existência e das disposições subjetivas adquiridas, como se fossem naturais, nos processos de socialização.'

Fabricio vic disse...

Bom,eu sou um músico de rock,até pra mim que lido com a sensualidade feminina e aprecio muito,sem hipocrisia,assisto filmes eróticos e minha namorada tambem curte uma sacanagem,vejo que no rock tem alguns idiotas machistas(Viu Axl) ou gente até que não sabe em que mundo realmente está,mas o problema do sertanojo universitário é que ele reflete ou tenta tendencia a fornecer uma cara da juventude coxinha,classe média,semi analfabeta,que continua no século passado,carregada de velhos pre conceitos e rechada de bebidas,drogas e crime passional,não que roqueiro não se drogue(e se ele é otário,morre mesmo,viu Kurt)mas o esquema do sertanejo é como uma bomba pronta pra explodir a qualquer momento,e faz apologia a um consumo materialista,de pobre,de país pobre que acha que status é ter um carro de rico,ou ostentar dente de ouro,e nos EUA por exemplo,isso é considerado patético pois o padrão de vida dos caras é milionário comparado ao brasileiro,e já que pra mim a unica coisa de valor que existe tirando o dinheiro é a educação e a cultura,essa sim salva gente,esses animais(sertanojos)não estão preparados pra usarem até seus bens materiais,e a falta de conhecimento do mundo,da realidade em volta,gerou mulheres machistas que se sujeitam a homens igualmente ignorantes,que as submetem a velhos dogmas em que a mulher é sua propriedade privada,monogâmica,e mais uma vez uma porta pro crime passional,o cara mata por traição e tal(eu e minha namorada somos swingers,então a gente tá pouco se lixando)então cara,muita mulher no Brasil,infelizmente não se libertou porque suas mães machistas não deram condição,sempre colocaram o lance do homem com essa maldita condição de"principe"que não existe,e num pais pobre desse aqui é um perigo.No Brasil,empresários,lavadores de dinheiro,se infiltraram no meio artístico pra dar um golpe de estado na música brasileira,só tem artista ruim que se beneficia,porque pra eles é importante todo mundo sem espaço na midia,e só o lixo e a deseducação,é o padrão Globo/record de qualidade deles que vale nas rádios e tevês.Então é isso que acontece esse lixo de sertanejo,funk que não é funk,é a coisificação do povo brasileiro.