terça-feira, 18 de setembro de 2012

O que é, afinal, música livre? Livre de quem?

por Felipe Julián



No florescimento da cibercultura uma enxurrada de novos termos, expressões e neologismos nos sufocam e oxigenam simultaneamente.  Certos termos começam a ser ouvidos numa frequência que não se explicaria em nenhum outro momento histórico: transversalidade, compartilhamento, tags, guerra memética etc...

Dentre esses termos, um passou a ser utilizado com especial veemência e assumiu trejeitos de bandeira social. É a famigerada Música Livre. Quase tão mal explicada como a música independente (o que não é independente hoje em dia?) a tal música livre é, antes de mais nada - e para o senso comum - música que ninguém houve mesmo estando gratuita e disponível para ser baixada na Internet. 

Ora... Se algo é bom e desejável, certamente pagaríamos por isso. Se não é grande coisa ou se é produto de politica assistencialista, então certamente não seremos trouxas de pagar - dirá a cabeça média.

A surpresa é a seguinte: música livre não é apenas gratuita e - pasmem - pode vir a ser muito boa.

Mas ao invés de provar citando exemplos e mais exemplos, prefiro dar um breve mergulho na organização que Pierre Levy fez da historia humana da comunicação  a fim de descobrir LIVRE DE QUEM está a música livre.

Resumindo bastante o assunto é o seguinte:

A historia da comunicação teria vivido cinco etapas sucessivas e também escalonadas:

Oralidade / Ideogramas / Alfabetos Fonético / Mass Media / Cibercultura

Só para nos posicionar neste esquema, estaríamos vivendo neste momento a crise de transição da Mass media para a cibercultura. 

ORALIDADE
é certamente a fase de maior duração na humanidade já que se mantém até hoje. Saber e informação são transmitidas no boca a boca. Este fator restringe tremendamente o potencial de dispersão das ideias já que ficam restritas à uma severa limitação de espaço geográfico. E às idiossincrasias entre pessoas, comunidades e nações.

IDEOGRAMAS
Quando o ser humano passa desenhar ideias nas paredes das cavernas, nas pedras das pirâmides ou no papiro, passa sedimentar suas memórias e com isso transmite para gerações mais distantes o que antes passava por um filtro geracional. Também passa poder transmitir ideias e saberes via papel para outros espaços geográficos distantes até então inatingíveis. Mas como o domínio  dos ideogramas é difícil e requer muitos anos de estudo, estavam restritos à grupos especiais, religiosos ou escribas que  de certa forma monopolizavam o transito desses saberes.

ALFABETOS FONÉTICOS
Ao substituir aquelas centenas ou milhares de desenhos ideográficos por uns 30 símbolos fonéticos, a humanidade simplifica tremendamente o ato de escrever e permite não só dominar a técnica em poucos 4 ou 5 anos de estudo como também amplia tremendamente o numero de pessoas que podem dominar essa técnica. Surgem, neste período as Cidades Estado. Explode o comercio. É possível ler, escrever e interpretar as leis. Nasce a democracia e a política. A possibilidade de discutir e questionar as leis minimiza a importância das lideranças religiosas do passado. Surge um novo sistema de poder. 

MASS MÉDIA
Façamos justiça: assim como o advento dos símbolos fonéticos democratizou e universalizou a possibilidade de escrever, o que dizer então da invenção da imprensa, da radio e da TV?  Se a imprensa permite que noticias do mundo todo atinjam lares de quase o mundo todo em 24 horas ou menos, e se a radio e a Tv podem transportar sons e imagens de qualquer parte do mundo para quase qualquer parte do mundo, então é justo afirmar que as mídias de massas contribuíram para esse processo de democratização da comunicação e acesso a informação, assim como fizeram os ideogramas em seu momento e o alfabeto fonético posteriormente.
Novamente, o setor social que detinha o monopólio da comunicação na etapa anterior se viu, a contragosto, substituído por um novo setor que chamaremos aqui genericamente de INTERMEDIARIOS.   

CIBERCULTURA
Novamente uma invenção técnica / tecnológica aumenta em quantidade e qualidade o acesso irrestrito à comunicação e informação. A informática e sua posterior conexão em rede (e redes de redes) traz um pequeno e revolucionário diferencial em relação as mídias de massas: 

a comunicação bilateral plena. 

É o começo do fim do monopólio dos poucos que falam para muitos. Agora, todos falam e todos ouvem. Todos são produtores, difusores e consumidores de conteúdo. Começa a minguar, portanto, a estrutura de poder que se estabeleceu por toda a Mass media com seus conglomerados de entretenimento e comunicação. Redes mundiais de TV e jornalismo passam a competir com a instantaneidade das redes sociais. Não é mais um programa de TV quem determina o pequeno leque de artistas que serão consumidos ao longo do ano. Surge um assustador fórum onde todos conversam sugerem e compartilham ao mesmo tempo.

Nesse ambiente, músicos podem criar e difundir sua música sem a curadoria dos intermediários da Mass media. Tal filtro é substituído por uma centena de mecanismos que permitem a qualquer obra chegar ao seu publico quase que automaticamente, desde que esta esteja corretamente "tagueada". Substitui-se a insuficiente classificação do "suporte loja" (pop, rock, jazz, erudito, etc...) pela tal nuvem de tags: adjetivos grudados à obra e sem os quais esta não poderá ser encontrada pelo mercado que a demanda (e desde o myspace esta provado que, por pior e mais deslocada seja a sua música, certamente há, espalhadas no mundo, pelo menos umas 5000 pessoas capazes de adorar o que você faz se você conseguir entregar sua música a elas).

Para otimizar esse fluxo espontâneo, surgem alguns mecanismos como o copyleft e o Creative Commons. Este ultimo visa otimizar o trafego e a reciclagem criativa de obras de arte e obras intelectuais desarraigando-lhes os tentáculos massmidiaticos que impedem tal fluxo por não poder taxá-lo.

E aqui é que podemos dizer que surge a tal música livre da cibercultura. Não é necessariamente uma música livre esteticamente já que se sujeita a um mercado. Não é uma música necessariamente livre de investimentos de gravadoras, selos ou editais. É simplesmente uma música que pode circular pelas redes da cibercultura sem criminalizar ninguém já que não possui drenos ou enemas conectando-a diretamente a esses velhos intermediários. 

Isto significa que a música não pode ser comercializada? Bobagem! Pode sim. Duvide sempre do caráter e intenções de quem afirma o contrário forjando propriedade no assunto. Pode ser vendida das mais diversas formas. O que se encerra neste modelo livre é o monopólio da circulação desta obra e a remuneração compulsória aos intermediários que se baseiam na chamada estratégia da escassez. Isto é: a medida que somente eu determino a oferta de um produto no mercado e enquanto houver demanda, terei meu lucro garantido mediante a manutenção desse pequeno monopólio de exploração. E vale dizer que se uma música não da lucro estando livre, é impossível acreditar que possa dar sob regime severo de copyright. 

Assim sendo, a música livre, ainda que não tenha pretensões anti-mercadológicas, acaba, por consequência de sua estrutura de circulação, sendo um vírus contra as velhas estratégias monopolistas do livre mercado daqueles poucos protagonistas. Mas isso, é claro, desde que que esteja explicito na obra seu desejo de ser livre mediante (no mínimo) um licenciamento Creative Commons. 

Fonte: http://www.axialvirtual.com/Julian/Julian/Textos_e_artigos/Entradas/2012/1/24_O_que_e%2C_afinal%2C_musica_livre.html

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