quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Reflexão Sobre A Educação Contemporânea


Educação musical e educação tradicional. A presença ou virtualização do professor. O desenvolvimento da linguagem como guia a uma reflexão sobre a didática contemporânea.
por Felipe Julián

Em uma comparação entre metodologias educacionais diversas aplicadas a áreas e ambientes igualmente diversos como sejam o ambiente universitário e uma escola de música, é possível estabelecer algumas oposições que atuem de referencial comparativo entre estes cenários tão dispares mas que, ao mesmo tempo, apontem para um caminho comum voltado, mais especificamente, à educação de nível universitário.
Não é lenda que a educação musical nos países ocidentais se dá, muitas vezes, de forma excessivamente arcaica. Aquela imagem da professora de piano que tem como principal mérito a desilusão de seus alunos não só não é falsa como infelizmente é bastante comum. No ensino musical tradicional é fácil encontrar depoimentos de pessoas que, independentemente de suas paixões musicais, desistiram do estudo por não encontrarem nenhuma afinidade entre esta paixão e a aula a que foram submetidas, geralmente, em idade ainda muito jovem.
Neste artigo, se fará uma comparação entre esta metodologia, cujo principal resultado parece ser o insucesso, e a problemática da educação de nível superior, em especial dos cursos das escolas de artes, onde muitas vezes, se reincide nesse mesmo equivoco promotor de tantas desistências desnecessárias ao estudo de música: subestimar a intuição do aluno (e do professor) como mecanismo primeiro de aquisição de conhecimento e prática (exercício) deste.

Infância da Língua
Vale a pena, discutir, ainda que brevemente, a principal ferramenta em questão ao posicionarmos a educação enquanto objeto de estudo: linguagem.
Surpreende o fato - bastante aceito em meio científico – de que a faculdade da linguagem no ser humano tenha sido decorrência não apenas de uma necessidade de organização social:
O desenvolvimento da linguagem aconteceu, ao que tudo indica, no momento em que as relações sociais entre homens se tornaram mais complexas, sendo impossível separar o indivíduo de sua relação com o contexto social do qual faz parte.
À 40 mil anos, surgiram tumbas, fogueiras, lares e habitações que viriam a ser indicativos do momento em que a evolução cultural substituiu a biológica em termos de seu valor adaptativo.
A arqueologia, hoje, nos diz que todos nós temos um ancestral comum que viveu entre 100 e 60 mil anos atrás na África mas a verdadeira transição para a humanidade moderna teria ocorrido na passagem do Paleolítico médio ao Paleolítico recente, ou seja, em torno de 50 mil anos atrás. 
Datam dessa época os homens modernos, que da África se espalham pelo mundo, suplantando o Homo sapiens, com movimentos de colonização que alcançam seu ponto máximo com a revolução agrícola ocorrida por volta de 10 mil anos atrás.
É difícil imaginar uma transformação tão rápida e profunda sem considerar o papel crucial de uma linguagem já com todos os elementos das linguagens modernas.  Em outras palavras, data-se dessa época a existência de uma primeira língua”. (FRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne em Origens da Linguagem)

Mas, fundamentalmente, tenha sido esta linguagem, fruto direto do hábito lúdico de cantar. Fazer música.
Ao que indicam algumas pesquisas na área, o ser humano primitivo, viveu a “benção do ócio” em diversos momentos de sua história. Ante tal generosa situação, pôde, de forma semelhante à de uma criança de 1 a 3 anos de idade, praticar seu aparelho fonador. 
Sim. Se as sociedades sinergéticas viviam sob a bênção do ócio e sub secie ludi, havia um espaço generoso para aquelas hesitações entre som e sentido. (RISÉRIO, Antonio apudFRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne em Origens da Linguagem)
“As grandes atividades arquetípicas da humanidade são, desde o início, inteiramente marcadas pelo jogo como, por exemplo, no caso da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é como se o espírito estivesse constantemente saltando entre matéria e as coisas pensadas. Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é um jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado da natureza. (HUIZINGA, Johan apudFRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne em Origens da Linguagem) 
O que se teoriza é a possibilidade de a poesia e a música terem antecedido a faculdade da fala. A “maravilhosa faculdade de designar” a que se refere Johan Huizinga, profundamente explorada na poesia de Manoel de Barros, é a repetição de um processo, na verdade incessante, que constitui o desenvolvimento primeiramente cognitivo e posteriormente intelectual do ser humano. Ao atribuir à bola vermelha um som específico, o bebê está isolando essa bola vermelha do restante do mundo. Ao fazê-lo, dá nome à coisa. Um nome afetivo. Lúdico. Que posteriormente será substituído pelo nome cultural que seus pais (ou professores) transmitirão. 
Vale uma breve interrupção nesta explanação para atentar a alguns fatores que guardam íntima relação com a educação: primeiramente, o ato de designar é a essência do compreender. Não se detêm algo que não se possa manusear. E nomear é, cerebralmente, semelhante a manusear:
A fala é o melhor espetáculo realizado pelo homem. (WHORFapud FRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne em Origens da Linguagem)
Tese de Leroi-Gourhan: desde que o homem fabrica utensílios, fabrica signos – e pelos mesmos processos mentais. Tecnicidade manual e tecnicidade mental são estreitamente vinculadas. Linguagem e motricidade técnica implicam as mesmas vias cerebrais. Lembrando a curta proximidade em que se encontram, na fisiologia do córtex cerebral, as fibras da projeção manual e as fibras faciais, o paleontólogo assevera que:
Há possibilidade de linguagem a partir do momento em que a pré-história apresenta utensílios, uma vez que utensílios e linguagem estão ligados neurologicamente.
A técnica é simultaneamente gesto e utensílio, organizados por uma verdadeira sintaxe que dá às series operatórias a sua fixidez e sutileza. A sintaxe operatória é proposta pela memória e tem origem entre o cérebro e o meio material. Se seguirmos o mesmo paralelo para a linguagem, verifica-se que está presente o mesmo processo. (FRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne em Origens da Linguagem)

Outro fator que diz respeito à educação, mas agora residindo no chamado “professor” ou “mestre” e não mais no aluno é a percepção de que o aprendizado tem dois níveis: o da apreensão da coisa pela sua designação (como acaba de ser explicado) e o da substituição deste signo por um outro transmitido, num primeiro momento, pelos pais de uma criança e num segundo momento pelos professores e mestres que uma pessoa venha a ter ao longo de toda sua vida, inclusive durante sua velhice. Neste ponto, se faz imperativo compreender que o professor não é a fonte do conhecimento e nem tampouco um mero promotor de  processos. É também, e quem sabe antes de mais nada, um substituidor e organizador de signos. Signos estes, previamente descobertos pela criança ou pelo aluno mas carecendo de uma contextualização consistente com os demais signos do mundo ao redor. Assim sendo, o professor é, necessariamente, um ser despoetizante desse processo lúdico, nobre e elevado descrito acima. Mas, se essa é a função do professor, certamente o poderá fazer promovendo mais uma substituição importante: a da poesia sensorial sinergética por uma poesia baseada em significados. É promover a migração do prazer pelo signo rumo ao prazer do significado.  

Legado
Se a educação visa promover tal substituições de signos pessoais por significados coletivos, há que se considerar que condiçãosinequanon para o sucesso deste processo é preexistência destes signos. Portanto, é realmente ineficiente simplesmente nomear conceitos matemáticos de engenharia ou funções de acordes musicais se o aluno em questão não teve efetivamente um contato inicial com esse material. Aí sim o professor deve assumir o papel de um promotor de processos antes de propor a re-simbolização dos conceitos em questão.
Neste aspecto em particular há que referir-se, primeiramente, à deficiente educação fundamental brasileira do final século XX  e inicio do século XXI que, pela falta crônica de investimento, produz gerações de cidadãos com habilidades “funcionais” mas, geralmente, sem capacidade de reflexão efetiva e de crescimento intelectual por motivação própria.
Secundariamente, é preciso entender que, para além do abismo social brasileiro, houve no mundo ocidental como um todo a predominância de uma educação altamente metodificada baseada no que se chamará aqui de processos seriais. O cartesianismo que fundamentou satisfatoriamente nossas ciências, demonstrou-se incapaz de resolver os dilemas de áreas como política, cultura, psicologia dentre outras. As ciências humanas não usufruem dos benefícios de uma educação serial cartesiana assim como pode usufruir a engenharia.
A ideia de uma educação serializada faz paralelo com o funcionamento do lobo esquerdo do cérebro humano. Esta metade desse órgão fantástico, em oposição à outra metade, posiciona os dados de forma serializada. Isto é, associa informações lógicas uma após a outra de forma a obter uma resposta precisa e inequívoca: 2+4+3+5=14.  Se eu produzir n elementos no período de tempo t então, após um lapso de a(t) terei o resultado x=a*n. E assim por diante.
O lado direito do cérebro humano, parece atuar de forma curiosamente transversal a esta. As análises são feitas em paralelo, o que significa uma velocidade de resposta muito maior ao custo de um certo grau de imprecisão. Este paralelismo onde todas as informações disponíveis são dispostas simultaneamente analisadas com pouca ou nenhuma hierarquia entre si é responsável pelo que se chama preconceituosamente de intuiçãomas que nas artes frequentemente recebe o valioso título desensibilidade. E é a sensibilidade – ou a capacidade de analisar imprecisamente e rapidamente um número gigantesco de fatores pertencentes a universos até mesmo incompatíveis – que permite às pessoas realizar a maior parte das tarefas cotidianas bem como tomar decisões importantes. 
O processo cognitivo humano se inicia fundamentado nesta capacidade de analisar paralelamente o mundo. Os pais, mestres e professores, tradicionalmente, na cultura ocidental europeia, são incumbidos de adicionar  a este processo, a análise serial precisa do lobo cerebral esquerdo. E assim vem sendo feito a alguns séculos. A questão que nós salta aos olhos hoje é a seguinte: parece que, em alguns assuntos, os alunos estão apreendendo mais rápido do que nós educadores, estamos acostumados a ensinar.

Informática e livre improvisação
De fato algo nas gerações que tiveram acesso a informática desde muito cedo e, mais ainda, naquelas que vivem intensamente o fenômeno Internet, parece haver uma velocidade para a simples apreensão de alguns recursos muitíssimo acima da média das gerações anteriores. Não cabe agora discutir a efetiva profundidade ou qualidade do aprendizado desta geração. O que se aponta é um fator que, se devidamente aproveitado, pode gerar benefícios sem precedentes ao processo educacional. 
A forma como os jovens operacionalizam seu uso das ferramentas informatizadas é bastante curioso. São capazes de chegar ao seu objetivo passando por inúmeras páginas de diversos sítios da Internet sem praticamente ler o conteúdo destes. São capazes de driblar o mal funcionalmente ou os bugs de diversos serviços digitais sem grande dificuldade e, certamente, sem nunca render-se ao manual do usuário.
Essa notória facilidade vem de onde? Em que momento uma criança aprendeu a navegar em um smartphone? 
As respostas estão muito mais ligadas à existência de uma prática intensa, desorganizada e motivada exclusivamente por interesse pessoal do que por uma metodologia de ensino. Aliás, propor-se a ensinar alguém a utilizar certas ferramentas digitais é, por vezes, experiência semelhante à descrever um sonho. A medida que se descreve, ele se torna gradativamente mais distante e sem sentido. 

Isso tem motivo. O sonho durante o sono é uma construção do inconsciente num momento muito particular onde os autoritários processos seriais de raciocínio baixam sua guarda e a livre associação impera em seus processos paralelos. Esse é o motivo pelo qual o non sense do sonho sempre tem um sentido. 
Não a toa um dos exercícios mais relevantes à formação de um músico avançado é a chamada livre improvisação. Situação na qual o indivíduo se submete ao tempo presente sendo obrigado a abandonar a linearização cartesiana do pensamento composicional e interagindo quase que por reflexo com aquilo que seu cérebro pode captar e decodificar. Se bem que a livre improvisação não seja um sucesso comercial, boa parte dos projetos musicais bem sucedidos comercialmente fazem uso de processos composicionais ou de estudo baseados nessa técnica.
Para as gerações mais antigas, é por vezes difícil enxergar a informática como um complexo sistema de simulações. Ao ver dessa forma, entender-se-á que o usuário jovem é um improvisador. E este é o sucesso de sua relação simbiótica com a informática que é, por sua vez, um organismo em constante e ininterrupta transformação.

CONCLUSÃO
Talvez a grande virada que nos seja imposta enquanto educadores venha a ser a aceitação (ou promoção) de um processo educacional desorganizado e até mesmo caótico que permita (e obrigue) o aluno a exercer plenamente sua inteligência que é dotada de processos seriais e paralelos simultâneos. Se considerarmos que o legado da educação ocidental pesou demais a balança para o lado dos processos seriais, entenderemos a importância de um certo processo compensatório em algumas próximas gerações no sentido de promover uma liberdade do pensamento. Um pensamento pleno que alie a precisão à sensibilidade.
Uma aparente falta de metodologia talvez venha a imperar visando a promoção deste novo processo. E caberá aos educadores dar o exemplo e associar precisão e sensibilidade ao dirigir os processos e seus limites perante os alunos.
Vale lembrar que, apesar da evidente falta de talento de alguns educadores musicais (como citado no inicio deste artigo) muitos grandes músicos surgiram sendo alunos deles. Como isso seria possível?
Isso é possível pelo mesmo motivo que faz com que, cada vez mais, pequenos gênios da informática surjam e despontem antes mesmo de terem ingressado num curso superior: há atividade prática suficiente, no cotidiano destas pessoas, para promover o autodidatismo. 
Quando autores como Philippe Perrenoud* comentam a figura de um professor com competência para organizar e dirigir situações de aprendizado em detrimento daquele modelo do professor palestrante está se falando geralmente de um processo pendular de compensação dos equívocos que a educação tradicional têm cometido nos últimos dois séculos. No entanto é importante recorrer ao fato de que, promover a migração do prazer pelo signo rumo ao prazer do significado não é, necessariamente, uma atividade que promova prazer no aluno ou que o interesse por natureza. Basta recorrer ao exemplo do desenvolvimento cognitivo de uma criança que, não só precisa como busca o conflito com seus pais educadores como forma de realizar esse processo. Um professor que não entenda que esta sublimação do prazer do signo rumo ao prazer do significado é um processo de conflito, de questionamento de autoridade, de esforço pessoal, de responsabilidade etc... poderá incorrer no risco de formar cidadãos desistentes por natureza. Isto é, pessoas que associam o correto ao imediatamente prazeroso. Portanto, pessoas psiquicamente ansiosas e ideologicamente consumistas. 
O conflito em sala de aula é necessário. A autoridade do professor é importante ao aluno assim como a autoridade dos pais. Não se trata de exercer abusos. Pelo contrario, de dar exemplos de bom uso dessa autoridade em situações limites de forma a promover a auto-estima do aluno. Uma aula cheia de atividades práticas e recursos audiovisuais é útil. Mas, uma aula meramente expositiva que exija um exercício pitagórico de concentração não é um erro. O acusmônium de Pitágoras, recurso ante-visual que se opõe a tudo o que se pensa atualmente quanto a material e processo didático, funcionou tão bem que manteve viva a trigonometria e tantos outros conceitos até o momento em que puderam ser definitivamente registrados em papel.
A conclusão a que isto nos leva é de que, mais importante do que a paramentação audiovisual de um curso, a capacidade didática do professor é que define o sucesso dos processos.

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