sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Sincretismo E Novas Mídias

por Felipe Julián

O sincretismo, na formação do Brasil, muito mais do que um modo de resistência e autopreservação, foi um dos alicerces com o qual a cultura brasileira se construiu. Uma cultura mestiça, uma cultura dominada e dominante. Uma cultura da coexistência e da assimilação.

Uma coexistência a força em sua origem. Uma relação de dominação entre senhores e escravos, entre brancos e índios que fracassou enquanto modelo cultural. Tendo sido submetida a figura do dominador de tal forma aos hábitos e costumes dos dominados, e com tamanho isolamento das metrópoles culturais do mundo daquela época, pouco restou a estes desarraigados senão perder-se no espaço-tempo cultural de um Brasil em plena construção.

A cada investida no sentido de civilizar negros e índios o branco assimilava mais e mais a cultura que visava suprimir. Eram os brancos, na verdade, os primeiros antropófagos.

E essa mesma nação que aprendeu a praticar e fazer uso de um certo tipo de tolerância – como no caso da capoeira – uma luta disfarçada de jogo e dança – é hoje, uma das sociedades que mais se apropria antropofagicamente das novas ferramentas de comunicação.

Optando cada vez mais por sistemas livres, democráticos e descentralizados de comunicação e difusão de idéias esta sociedade começa a encontrar alternativas midiáticas cada vez mais independentes daquele velho sistema de comunicação de massas que, ainda que as vezes público, sempre atendeu a interesses privados por definição.

A voracidade dos usuários destes novos meios de comunicação banaliza a mídia convencional e revela seu anacronismo numa sociedade que tem urgência para o debate e produção de soluções.

A circulação de idéias aumenta em velocidade e quantidade.
Cada vez menos se tolera o direito à exploração financeira destas idéias ou dos meios de intercambio das mesmas. Qualquer empecilho é visto como um anti-catalizador destes processos. Conceitos antiquados como os implícitos na propriedade intelectual passam a ser cada vez mais postos a prova. E quanto mais ampla é a aplicação destes conceitos na realidade do mundo, mais eles se revelam imperfeitos e insuficientes. Mais eles se revelam subservientes de interesses de uma minoria em detrimento de um coletivo maior.


O fato é que temos experimentado algums goles a mais de liberdade do que o que estávamos acostumados. E isso tem despertado uma sede voraz. E portanto começam a surgir os subprodutos: liberdade de mercado sendo defendida com base nos mesmos argumentos que a liberdade de expressão. Um erro perigoso visto que a imaterialidade das idéias permite-lhes o direito ao erro, a experimentação e à prova; enquanto que um mercado que se permite o errar e o experimentar é um mercado potencialmente capaz de matar e destruir ainda que não o faça intencionalmente. É um mercado que conhecemos bem.

Daí o papel fundamental da arte enquanto um laboratório de idéias e técnicas. Sim. Na arte é permitido ao ser humano errar. E cada erro da arte é tão útil a sociedade quanto um acerto. Quem sabe a função do acerto na arte não seja muito mais do que simplesmente evidenciar o que seria um erro. E sendo a arte imaterial (não enquanto suporte mas sim enquanto conceito) nos permite colocar a prova e refletir a respeito absolutamente toda e qualquer coisa que a sociedade produza ou reproduza.

Daí a fundamental importância da arte fazer uso desses novos sistemas de comunicação enquanto matéria prima ou suporte, neste momento um tanto peculiar da historia humana.

Fonte: http://www.axialvirtual.com/Julian/Julian/Textos_e_artigos/Entradas/2012/1/24_Sincretismo_e_Novas_Midias.html

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