quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

ANTIMÚSICA?!


Texto de José Daniel Felicissimo sobre o filme "The Sound Of Noise" (O Som Do Ruido)



“Acordo às 7h01 com o despertador vociferando alguma coisa nos meus ouvidos: Pi-pi-pi-
pi-pi-pi-pi-pi!”, ligeiramente espaçado. Meu corpo treme, alongo os membros, um suspiro
(hhhuuummmmmmm aaahhh). Creio que está ajustado para 104 bpm. Irritante, mas
compassado. Já me impõe um certo ritmo de funcionamento; só depende de mim se meu dia
será transcorrido em compassos de 4 por 4, 5 por 4, 9 por 8. Veremos...

Alcanço a privada para a cagada matinal. BLUAP-SSHHHHHHHHH. Pronto, dlac, é questão
de boas maneiras – imagino – que se mantenha a tampa da privada abaixada. Vou ao
computador para me atualizar antes de começar os trabalhos: VVVUUUUUUUUUUUUMMMM,
que máquina potente, hehe!! Tlac tlac tlac tlac tlac tlac tlac tlac tlac tlac (computadores
velhos podem lembrar vagamente uma máquina de escrever. A minha está quebrada, preciso
conserta-la; ela tem expressa ruídos magníficos, tanto da minha mente quanto das suas
engrenagens). Senhas e mais senhas a se digitar para poder acessar as informações e descobrir
o que se passa hoje no mundo. Meu mundo ainda segue silencioso (?).

A pia da cozinha guarda algumas louças que eu não quis lavar ontem, antes de dormir. PÁ,
CLIN, SSSSHHHHH, BLUUUMM, e alguns PA mais tarde, tudo limpo. Esquento a água para o
café, BLOP BLOP BLOP BLOPBLOP BLOPBLOPBLOPBLOPBLOPBL... quentinho, forte. Duas doses
e um pão, bananal. Coloco uma roupa e vou pra rua ver qual vai ser o meu tempo hoje.”


Qual é a sua surpresa quando, acidentalmente, você percebe a sonoridade de um clipe sendo
“baquetado” contra a superfície da sua mesa de escritório, e misteriosamente um padrão
rítmico se apresenta aos seus ouvidos? Ou quando você está na sua cozinha e, sem querer, usa
uma força meio que excessiva para fechar o armário dos pratos – e gosta do som que aquilo
repercute pelo recinto? E outro dia, quando você sacou um som opaco, bruto do livro caindo
chapado no chão? As “notas” que você já tirou do liquidificador? O grampeador estacando
as folhas maçantes do seu emprego mambembe; o teclado do computador na última hora
maçante do escritório; o garfo tilintando contra a faca ou o prato durante aquele almoço de
família insuportável; a bola de basquete golpeando o chão da quadra naquela partida mano
a mano com seu amigo; o zíper da calça jeans que você IA doar pra caridade até que você
percebeu que o ruído que ele produz de cima pra baixo e de baixo pra cima te deixou um
pouco inquieto – sabe-se lá porque – e você, involuntariamente, pôs ela de volta no armário;
os diferentes sons que saem quando você escova os dentes da frente e depois os de trás,
voltando para os da frente e, no meio do caminho, sentiu que ali o som sai de outro jeito; a
lata de chocolate que agora você usa pra guardar lápis, borracha, caneta, tesouras e outras
coisas na mesa do seu escritório de casa; o clic-clac do interruptor do abajur; a percussividade
de um sofá...

Pode-se tirar som de qualquer coisa, sim! Uma vez que se atenta para isso, a versatilidade
do som e das sonoridades dos objetos ganham outras dimensões. A percepção fica mais
aguçada - e atiçada, sempre querendo mais. A experiência efêmera de capturar por entre as
ondas sonoras do cotidiano algum tipo de música pode ser bem gratificante. E intrigante. Não
necessariamente um padrão identificável de sons que crie um fluxo reconhecível de melodias
e harmonias que provoquem sentimentos e que se complementem umas às outras. Antes: um
jogo sonoro que impulsione a criatividade e que redimensione as sensibilidades concretas e
invisíveis do dia-a-dia.



Esta discussão é, basicamente, a discussão que o filme “Sound of Noise” tenta trazer à baila.
A saber: a música não é necessária, impreterível e intrinsecamente ligada a um instrumento
musical. Ela pode ser tão mais gutural e sensitiva quanto o próprio instante no qual ela é
executada; efêmera o bastante para provocar os sentidos; e livre até as últimas consequências
– livre de qualquer registro e tabulação.

Como se pode observar – e ouvir – no filme, a música eletroacústica demanda tanta disciplina
e estudo quanto qualquer outra vertente musical. Porém, a abordagem que foi promovida
por este coletivo sueco chamado Six Drummers se desenrola no sentido da desconstrução do
mito que a música só existe quando instrumentos entram em cena e se digladiam por entre as
melodias e harmonias, consonâncias e dissonâncias, tensões e resoluções.

E coisas lindas podem sair destes processos de criação musical – isso é um fato já consumado
há séculos. Mas, a partir do momento em que se constata que existem outros caminhos
para a música – e o século XX está inundado destas alternativas de invenção e reinvenção do
processo de feitura de um produto musical -, não há como não sentir a inquietação que os
sons e ruídos provocam sobre nós aumentar e se agigantar ainda mais, fazendo-nos sentir
que existe muito ainda a se explorar na busca (individual e coletiva) pelo gozo máximo que a
música pode trazer para nossas vidas.



Mais informações sobre o filme:

Site Oficial: http://www.magpictures.com/soundofnoise/
                    http://en.wikipedia.org/wiki/Sound_of_Noise

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