segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Jazz e Dinheiro - Saindo Da Sarjeta

por Teo Oliver
 - Tentei ser cafetão, Fats. Não gostei.
- Então você vai tocar por dinheiro.

Em  1940 se iniciava a era das gravadoras com a invenção dos discos de goma-laca de 78 rotações e que mais tarde em 1947 seriam substituídos pelos discos de vinilNessa época, já estava consolidada uma rede de negócios em torno do Jazz.

Assim como hoje, existia uma rede de intermediários que decidiam o cenário musical, quem tocava e quem não tocava, onde tocava e aonde não tocava. Em geral, era a velha parceria entre o empresário e os donos de casas de show. Uma aliança corrupta e nefasta, que de nada se relacionava ou tinha a acrescentar com a música em si.


Para ilustrar isso, resolvi copiar um pequeno trecho do livro que é uma conversa entre Charles Mingus e seu companheiro trompetista Fats. Nela, eles conversam sobre a relação do dinheiro e o Jazz, em 1947.

A partir do texto, podemos ver como a realidade dos músicos, ainda mais aqui no Brasil, ainda é muito parecida com a dos anos 40 e 50. Na verdade até os anos 90 pouco ou nada mudou, mas com o avanço da internet aos poucos foram aparecendo ferramentas que nos permitem mudar este quadro.

Neste trecho Mingus e Fats trocam uma conversa interessantíssima sobre a industria do Jazz e a relação dos músicos com o dinheiro e a necessidade de tocar por ele. Citando nomes como Duke Ellington e Luis Armstrong...nessa pequena conversa, já temos claro um embrião do que viria a ser a industria cultural moderna, que evoluiu seguindo os mesmos moldes daquela época mas que hoje se encontra em desespero em função da perda de poder que os intermediários tem sofrido...e esse perda de poder vem da percepção de que os músicos em nada dependem das as gravadoras e intermediários, ou mais, eles não tem nem se quer razão de existir.

Indico muito a leitura do livro integralmente, pois além de contar uma parte da historia do jazz, conta também um pouco da historia da formação do povo estadounidense que se construiu sobre um racismo quase que legitimado pela sociedade, mesmo depois da abolição da escravatura. E nos traz um panorama de como funcionava a sociedade daquela época mostrando como a relação entre as pessoas, o espaço e o tempo era completamente diferente. Sem mais delongas, deixo com vocês o trecho a que me refiro:

– Você gosta de todo tipo de música, Mingus? Eu nasci em Key West, Flórida. Minha família é cubana. Toca música cubana?
– Não estou por dentro. Conheço algumas canções mexicanas.
– Fique na minha e eu vou levar você a alguns desses lugares. Pode dar uma canja, tocar um pouco. Toca outra coisa além de baixo?
– Tento ao máximo não tocar, mas eu brinco no piano às vezes, quando estou compondo muito, gosto de ouvir o som do piano.
– Com quem trabalhou antes, Mingus?
– Illinois Jacquet...Alvino Rey...
– É mesmo? Toquei com Jacquet também. Tocou com Diz ou Bird quando estiveram na Califónica? Sabe, eu já conhecia você antes de você me conhecer. Pergunte ao Jacquet ou a qualquer outro. Você não é tão desconhecido assim. Miles tocou um vez com você. Me falava muito da banda que vocês tinham.
– Falava? Ele mal disse uma palavra a não ser com o trompete. Até que ponto você pode ficar na sua com um cara que não dê nem um bom-dia? É o sistema Fats, é o sistema que mantém os negros desunidos.
– Sei o que você quer dizer, Estamos tão ocupados em ganhar uns trocados com o nosso instrumento que não temos tempo para solidificar uma raça. Temos de ir à cidade atras do cara, não tempos tempo nem de apertar a mão. Então tocamos jazz como uma saída.
– E onde está a saída, Fats?
– Bem na cara deles. Sabem que nós sabemos das coisas. Oram, somos propriedade deles, Mingus. Se não conseguem nos comprar, eles nos expulsam da cena. O jazz é um negócio importante para o branco,e você não pode se mexer sem ele. Somos apenas formiguinhas operárias. Ele é dono das revistas, das agências, das companhias de disco e de todas as casas que vendem jazz ao público. Se você não se vender e tentar resistir eles não o contratam e criam uma imagem negativa de você com toda aquela propaganda falsa.
– Vender, Fats? Para quem? Veja Ellington, Armstrong, Basie, veja só o Hamp. Todos os grandes líderes de orquestra. Não vai querer me dizer que agentes e empresários são donos de caras como eles!
– Mingus, você é um bom sujeito da California, não quero desiludi-lo. Mas já passei por toda essa merda e tive e aprender a fazer algumas outras coisas para sobreviver. Aprendi a não tentar vencer apenas com a minha música nessas ruas sujas cheias de gangues e bandidos por que ainda gosto mais de tocar música do que de dinheiro. O jazz não foi feito para dar milhões a ninguém, mas é ai que mora o problema. Aqueles que escolheram pratica-lo da maneira mais pura estão na rua da amargura comigo e com o Bird, estamos na chuva para nos encharcar. Eu me dava muito melhor quando ninguém conhecia meu nome, só os músicos. Pode apostar que deixa de ser jazz quando o submundo entra na jogada e o administra exclusivamente para fazer grana e até tira da jogada os agentes de cor. Calam a tua boca, enganam você na contabilidade de vendas de discos e, se você não chiar, dizem ao mundo que você é um verdadeiro gênio. (*tropicalia?). Mas se não se dobrar a eles, vão espalhar que você é um encrenqueiro, como fizeram comigo. E então, se um dono de clube honesto quiser contrata-lo para fazer apresentações, vão dizer que você não está disponível, ou que não atrai plateia, ou que vai arrasar com o clube como se fosse um gorila. E você não vai ficar sabendo de nada disso, a não ser por acaso. Mas se você se comportar, rapaz, vai ser contratado, só que por bem menos que os brancos, que copiam o seu jeito de tocar e, muito provavelmente, o agente ou dono do clube vai embolsar a diferença.
– Mas Fats, conheço um monte de caras empresários que recebem uma comissão aceitável, quinta, vinte ou talvez trinta por cento.
– Quem lhe contou isso? Mingus, o Rei Crioulo não possui nem mesmo cinquenta por cento de si mesmo! Seu agente leva cinquenta e um, quarenta e nove vão para a empresa criada em seu nome, mas que ele não controla,, e ele só tira quinhentos por semana e não fala nada. Mas ele é famoso, Mingus, ouviu, ele é famoso!
– Ninguém apontou nenhuma arma sobre o Rei Crioulo para ele assinar um contrato desses.
– Tem certeza disso? Certa vez ele começou a falar grosso e foi chutado para fora dos clubes do sindicato. Teve de desfazer sua orquestra lá na California. Tentou financiar a banda sem ajuda de ninguém  a não ser a patroa, para vencer o sistema. Mingus, é a maior arma do mundo a se apontar nas costelas de um homem: a fome. Então ele se vendeu de novo. Agora tem um clube com o seu nome, mas não é dele. Sim, é um truque difícil de bater, Mingus. Ha, ha! Estou pensando Peggy Lee aparecer em qualquer clube do East Side. Seu maior aplauso acontecerá quando ela disse: "Agora vou cantar a grande Billie Holiday". E Billie esta no olho do rua com todos dizendo que ela é uma droga. Criaram tanto problema para Billie, nunca a pagavam direito, apenas molhavam sua mão com um dinheirinho toda noite depois do traballho, o suficiente para ela voltar na noite seguinte. Isso é o que fazem com a gente, Mingus. Derrubam você e não permitem que se levante.
- Se você esta certo, por que alguns dos grandes homens de negócios negros não entram na jogada?
- Por que não acham que seja uma mina de diamantes e estão muito ocupados com a própria plantação, talvez apavorados. Não é seguro invadir o cofre do Branco quando começar a gritar aos negros que acordem e ocupem o espaço que lhes pertence, Mingus. Quando chegar o dia em que o negro disser eu quero a minha parte, então esconda a sua família e arranje algumas armas. Porque não ha melhor negocio para o branco que explorar o racismo.
- Acho que você esta certo nisso, Fats. Eu vejo que você e eu estamos nos hospedando em hotéis como este pelo dobro que o branco paga.
- Pois bem, se as coisas não mudarem, Cholly, faça o que eu lhe disse, arranje algumas armas, uns canhões e esteja disposto a morrer como eles estiveram. Foi tudo o que ouvi quando criança, como eles eram maus e não tinham medo de morrer: às armas, e toda aquela merda, quero a liberdade ou morte! Mostre-me onde estão o botão do poder atomico e vou dar a esses chupadores a liberdade que eles merecem!
- Você disse que o dinheiro não interessa aos músicos Fats. E se todos nos desistíssemos de fama e fortuna e tocássemos por que amamos tocar, como os músicos de jazz que vieram antes de nós, em sessões privadas para pessoas que ouvem e respeitam os músicos? Então as pessoas saberiam que os músicos de jazz tocam por amor.
- Pensei que você tivesse filhos, Mingus. Eles não precisam de cuidados lá na California?
- Vou escrever um livro e quando eu o vender não vou tocar mais por dinheiro. Vou compor de vez em quando e alugar um salão de baile, dar uma festa, pagar alguns músicos para tocarem umas coisinhas e improvisar a noite inteira. Isso era o jazz na sua origem, longe da rotina de contratos, compromisso e negócios.
- Mas, Mingus, e quando aqueles papas-milgalhas seus sentirem o estômago roncando e não houver nada em suas mandibulas a não ser as gengivas, os dentes e a lingua, o que você vai fazer? Tocar por dinheiro ou ser um cafetão?
- Tentei ser cafetão, Fats. Não gostei.
- Então você vai tocar por dinheiro.

*****Observação Importante: Os direitos do livro Saindo Da Sargeta - Uma autobiorgrafia de Charles Mingus, não são meus. Reproduzir o trecho aqui no blog é apenas uma forma de expor um ponto de vista numa discução que é comum e tão importante até hoje. Friso que o livro é muito bom e vale muito a pena ser lido integralmente. O trecho foi retirado das paginas Pg 141 a 143.

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