quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

CantoDoMundo Entrevista - Cesar Zanin - Espaço Cultural Walden

por Teo Oliver

Com muita honra, tive o prazer de entrevistar Cesar Zanin, musico, produtor musical e fundador do Espaço Cultural Walden, segue a entrevista:





Cesar, fala um pouco da sua vida antes do Walden.


Nasci na zona sul da capital paulista em 1975. Meus pais, ambos, são descendentes de imigrantes europeus, e se separaram quando eu tinha 12 anos. Então fui morar com minha mãe, primeiro em Cipo-Guacu e depois em São Vicente. Em SV comecei a tocar aos 15 anos, na escola, e ja em 1992 tocava em bandas relativamente conhecidas no underground da Baixada Santista. Casei-me aos 18 anos e fui pai pela primeira vez aos 21. Em 1999 voltei a morar na zona sul da capital paulista e ali morei até 2004, quando emigrei com minha então família (filho e ex-mulher).

Desde 1991 ate 2004 toquei em varias bandas underground na Baixada e em Sao Paulo, mas nunca consegui me manter financeiramente com musica, e como meus pais não puderam investir em minha formação e eu decidi me casar cedo, acabei trabalhando desde cedo e ganhando pouco. Já trabalhei em bar, cemitério, febem, escola, banco, entre muitos outros lugares, hehe.

Você já morou bastante tempo fora do Brasil, fala um pouco dessa experiência.

Em 2000 comecei a pesquisar minha genealogia, em 2002 fui selecionado por uma associação Veneta para um curso de um mês e pouco em Padova (Italia). Entre 2004 e 2008 morei em duas cidades do nordeste italiano, e depois morei em Brighton (Inglaterra) ate 2011. Enquanto morei na Italia, trabalhei em lugares diversos, viajei muito, escrevi e curti minha então familia. Na Inglaterra voltei a me dedicar à musica, inclusive tocando em bandas com meu filho, organizando shows, operando som para shows de bandas, organizando e tocando turnes na Europa e America do Norte, gravando e lançando bandas, dirigindo para bandas...

No fim de 2010 me separei depois de 17 anos de casado, e passei 9 meses na estrada com a mochila nas costas, entre Europa e as 3 Americas. No fim de 2011 conheci a Mariana, minha esposa, e me fixei em São Paulo novamente.

Como você enxerga a música no Brasil? Desde o que aparece e faz "sucesso" até o independente/underground.

A musica no Brasil infelizmente á envolta por uma aurea de glamour. Não somente no Brasil e não somente a musica, mas no Brasil vejo isso mais acentuadamente. Onde o artista deve ser alguém VIP, "exclusivo" e vivendo de favores e regalias, envolto em glamour.

Na frente positiva, o musico brasileiro geralmente e' criativo e a diversidade musical no Brasil é grande.



O que você entende por música "independente"? O que significa ser independente?

Meu conceito de independente é o artista não ser refém de corporações para criar, produzir, divulgar, negociar/comercializar sua arte. Nesse sentido, defino corporações como empresas que visam lucro acima de tudo, de forma selvagem, se relacionando com outras empresas inescrupulosamente, tratando pessoas como números a serem explorados, alienando o indivíduo.

Para mim o DIY é a expressão maior do independente, onde o artista concentra todos os estágios sem lidar com corporações.

Por que é tão difícil tocar em São Paulo?

Tocar em Sao Paulo nem é tao difícil, eu acho.

(bem, agora, sem o Walden, realmente poderá ser mais difícil tocar em Sao Paulo, sim, hehe)
Difícil mesmo é ser ouvido sem antes se armar de estratégias de marketing...é ter alguém prestando atenção no que você toca e sendo independente.

Existe publico para bandas novas?

Sim e não.

Existe, mas existe desde que essas bandas novas sejam "chanceladas" pelos blogs e jornalistas-guardioes-da-verdade-universal...
Muita gente fala da cena independente, mas esses blogs, que supostamente tratam da musica independente, na verdade escrevem sobre músicos lançados por corporacões, e os tais jornalistas, tão reverenciados por quem supostamente faz parte da cena independente, na verdade escrevem sobre artistas lançados por corporações e escrevem em corporações, haha.
Ou seja, de independente não vejo muito nisso tudo...
Trocando em miudos: O indepentente no Brasil so começa a ser visto e valorizado quando começa a deixar de ser justamente independente!


Como que aconteceu o Walden? E qual era o projeto do Walden?

Antes de deixar a Inglaterra, o plano era sair com a mochila nas costas por um tempo e então voltar ao Brasil, vender o único bem que consegui juntar em minha vida (uma kitnete na Brigadeiro Galvao), passar metade do valor para minha ex-esposa e com a minha metade montar um bar que hospedasse shows pequenos.

Já no Brasil, quando conheci a Mariana, a ideia foi aprimorada para abrigarmos outras formas de expressão artistica, como teatro, literatura, artes plásticas, fotografia, cinema, alem de festas etc.
Eu queria aplicar o que vi e vivi lá fora, onde a cena independente existe e por incrivel que pareça, é viavel (pelo menos para quem nao ambiciona ficar rico etc). Queria tocar eu mesmo meu negocio, sem funcionários, pois assim eu viveria ao máximo a experiência e poderia oferecer preços melhores. Não queria investir para que o lugar fosse descolado, queria investir para que o som fosse forte.

Por que o nome Walden ou Abrigo No Bosque Pé Na Estrada?

Desde 1991, quando vi o filme Sociedade dos Poetas Mortos na escola, que Thoreau vem me influenciando.

No final da decada de 90 cheguei a tocar usando o nome Walden inclusive.
Quis reproduzir o formato do nome do livro, e de quebra homenageando outro escritor: Kerouac.
O espaço foi idealizado para ser um abrigo, onde a criação artística seria valorizada e a troca de ideias e impressões pudesse se desdobrar em outros projetos.

Quais foram as bandas que mais te marcaram?

Nesses 21 meses de atividade do Walden, mais de 600 bandas, de varias partes do Brasil e algumas de outros países, se apresentaram.

Se eu fosse listar aqui as que mais me marcaram, a lista teria no minimo umas 30 bandas!
Ainda quero escrever sobre esses 21 meses de Walden, só não consigo saber quando terei tempo para comecar...

Vocês fecharam o Walden, quais foram as impressões, lições e aprendizados que ficaram?

O ultimo evento do Walden acontecerá dia 26/01/2014.

O Walden foi a primeira empreitada do gênero tanto na minha vida como na da Mariana. Foi bom porque aprendemos como funciona uma empresa no-dia-a-dia, fizemos tudo autonomamente, desde a abertura ate o fechamento. Quero dizer, não fomos sócios investidores numa empresa tocada por uma outra pessoa servindo de sócio-administrador, eu e a Mariana fomos os administradores que também investiram e trabalharam no dia-a-dia da empresa.
Desde o inicio conduzimos toda a busca por documentos para a abertura da empresa, lidamos diretamente com órgãos públicos, prestadores e fornecedores, instalamos os equipamentos, decoramos o local, fizemos a curadoria e cuidamos dos contatos com artistas e publico, criamos e mantivemos os canais de divulgação, limpamos o chao, os banheiros etc, servimos bebidas no balcão, cuidamos da segurança dos clientes, negociamos conflitos com os vizinhos, operamos o som, fizemos manutenção ordinaria e até mesmo extraordinaria, procuramos, selecionamos e treinamos colaboradores quando necessario etc.
Ou seja, se no futuro quisermos iniciar outra empresa, não partiremos do zero como foi desta vez, já saberemos o "caminho das pedras".
Agora um desabafo, por favor (haha):
Antes de voltar ao Brasil, por intermédio de amigos em comum, entrei em contato com o casal dono de um bar em SP pedindo informações e dicas de como abrir e manter um bar.
Ja de volta ao Brasil espalhei para meus amigos que estava procurando um imóvel para abrir meu bar. Recebi um email desse cara (do casal dono de um bar em SP), sobre o imóvel onde o Walden foi aberto.
Eu e a Mariana fomos ver o imóvel e gostamos, então eu propus sociedade ao cara, e ele aceitou.
Acontece que ele queria ser sócio mas não queria integralizar a sua metade do investimento para a abertura da empresa. Ele queria que eu fosse o sócio investidor e que ele fosse o socio sem investir dinheiro, a parte dele seria o know-how, haha. Ainda por cima ele queria sociedade meio a meio, mas eu investindo o dinheiro, haha.
Então propus para a Mariana ser minha sócia no lugar desse cara.
Então esse cara disse que se eu não aceitasse ser sócio dele eu teria que desistir do imóvel pois ele iria arrumar outra pessoa para ser sócio dele ali nos termos dele.
A Mariana se intimidou e eu acabei entrando em acordo com esse cara. Nesse acordo eu entraria com minha metade do investimento em dinheiro e ele entraria com a outra metade, seja em forma de dinheiro ou equipamentos, mercadorias etc (pois afinal ele já tinha outro bar).
O que aconteceu a seguir foi que esse cara investiu menos de 600 reais em dinheiro, a Mariana (que nem era sócia no papel) investiu 15 mil reais e eu investi mais de 40 mil reais. E por ele ter intermediado um contrato de marketing com a Souza Cruz ele ainda me fez pagar 12 mil reais para ele, para que ele finalmente se retirasse de uma empresa onde não trabalhou ao menos um dia.
Quando eu e a Mariana conseguimos nos livrar desse cara é que a Mariana entrou no contrato social como socia, apesar dela ja ter trabalhado tanto quanto eu desde o inicio. E eu tive que me virar para arcar com as despesas para a abertura e manutenção da empresa sem um sócio de verdade.
Se eu tivesse tido um sócio que tivesse investido o que lhe cabia, teriamos tido mais folego para aguentar os primeiros anos que normalmente são difíceis para uma empresa, ainda mais no caso do Walden, onde tudo que ofereciamos ao publico custava menos do que em qualquer outro lugar frequentado pelo nosso publico-alvo...
Houve também um amigo que investiu 15 mil reais (quando reformamos o porão), mas que infelizmente nao vestiu a camisa do Walden no dia-a-dia, não arregassou as mangas na hora de meter a mão na massa...
Mas a impressão pior que ficou foi que ninguém quer ser independente no Brasil.
O publico não valorizou o sacrificio que fizemos - sendo proprietários e ao mesmo tempo ali no balcão atendendo e na mesa de som operando...
Enquanto nossa ideia era oferecer produtos e servicos de qualidade por um preçoo menor, a imagem que fomos aos poucos adquirindo para muitas pessoas era e de um local "nas coxas"...
Além, claro, da questão dos shows de bandas independentes que ofereciamos no Walden serem na grande maioria das vezes de ótima qualidade artistica e na grande maioria dos casos seguiam vazios, sem publico pagante... Isto e', na pratica a grande maioria das pessoas que se dizem parte da cena independente não se dispõe a frequentar shows pequenos, se recusa a pagar para ver as bandas tocar, mesmo o ingresso custando apenas uma fração do valor de um ingresso para um desses festivais corporativos da moda que seguem entupidos de publico...
La fora eu vi, tanto na Europa quanto na America do Norte, que o underground serve de fornecedor de bandas para o mainstream, aqui o underground parece uma punição para as bandas, haha.
La fora eu vi bandas permanecendo independentes por vontade própria, e mesmo assim, sendo capazes de seguir produzindo dignamente, pois lá existe um publico disposto a pagar para ver essas bandas independentes!
Enfim, nosso folego, tanto pessoal como financeiro, foi cada vez mais se esgotando...
Entµao veio a noticia que a Mariana estava gravida e tudo ficou claro. Era chegada a hora de virarmos a pagina.
Agora temos nossa pequena Laura, a quem nos dedicamos integralmente, e depois de termos sido enrolados por meses por um outro casal que se comprometeu a comprar o Walden e que inclusive ja se apresentava aos clientes como futuros donos do Walden e que na ultima hora, com os papeis ja prontos, pularam fora, decidimos fechar e pronto. Vamos arcar com o prejuizo financeiro e basta.

Quais são os futuros Projetos?

Quero agora fazer um retiro, em algum lugar que eu ainda não conheço, para aproveitar esse inicio de vida da minha filha, namorar com a Mariana sem hora para acordar ou dormir, voltar a ler, voltar a escrever, voltar a tocar, compor e gravar com mais regularidade, passear... Sabe, uma desintoxicacao mesmo, hehe. Humanizar mais minha vida, estar mais próximo da natureza e da minha mulher e da minha filha, desapegar de toda essa loucura de se ter uma empresa e precisar correr sempre em desvantagem para fechar as contas no fim do mês... Viver melhor e com menos necessidade por dinheiro.
Sei que dentro de alguns poucos anos minha filha vai precisar ir à escola etc, portanto quero aproveitar ao maximo antes disso!

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Para quem quiser mais informações sobre o Walden:
http://www.espacoculturalwalden.com
https://www.facebook.com/esp.cult.walden?fref=ts

5 comentários:

Esp. Cult. Walden; Ou, Abrigo... disse...

E agora existe uma campanha de boicote ao Walden, iniciada por Murilo da banda Cadaver em Transe.

Eis os fatos:
1. Entre meados de 2012 e maio de 2013 teve um pessoal que comecou a fazer as festas Histeria e Animal no Walden. Nessas festas (e somente nessas festas) o clima no Walden adquiria uma vibe pesada por conta da postura de boa parte dos frequentadores, com ocorrencias de vandalismo e reclamacoes constantes dos vizinhos sobre a baderna na calcada. Eram festas onde eu e a Mariana nao conseguiamos ficar tranquilos e aproveitar como nos demais dias, mas eram festas onde o faturamento era bom;
2. Apos alguns episodios mais graves de vandalismo e conduta desrespeitosa, decidimos nao mais fazer festas com esse pessoal;
3. Agora duas pessoas que me procuraram para fazer 2 eventos nesse ultimo mes de vida do Walden, um deles o Bruno da Invisivel Caos de Cubatao e o outro o Josimas da No Gods No Masters que esta' trazendo a banda francedsa Alarm, chamaram para abrir um dos eventos a banda RAKTA e para abrir o outro evento a banda Cadaver em Transe. Essas bandas sao justamente parte desse pessoal que frequentava as festas Histeria e Animal.
Ja tentei explicar mais de uma vez para esse pessoal que incivilidade e vandalismo nao sao coisas normais, e que no Walden so acontecia nas festas onde eles estavam, sem qualquer exito. No Walden a paz e o respeito mutuo dependem tambem da boa vontade e da postura das bandas que tocam e dos organizadores dos eventos.
Eu so vim a saber no ultimo momento e mesmo assim nao vetei os shows, mantive as bandas, so que escrevi um aviso nas paginas dos eventos do facebook, bem claro e direto, dizendo que atos de vandalismo e falta de civilidade nao seriam tolerados.
Integrantes de ambas as bandas se sentiram ofendidos e passaram a atacar o Walden.
O Felix Barreira, um dos "organizadores" da festa Histeria, passou a me mandar mensagens privadas no facebook, me ameacando e me ofendendo de forma patetica.

Os dois eventos foram cancelados a pedido dos organizadores.

E' pra esse tipo de gente que eu abri o Espaco?
Nao mesmo.

mpommer disse...

agente se tromba

mpommer disse...

agente se tromba

Esp. Cult. Walden; Ou, Abrigo... disse...

Aqui o post:
https://www.mediafire.com/?vbq2erkd1s9rgjc

Reinaldo Andreatta disse...

Cesar e Mariana fizeram um trabalho esplendoroso nessa cidade difícil. O My New Device agradece a oportunidade de ter feito parte dessa história curta, mas diferenciada e de alto nível. Sorte pra vcs. abx, Rey Andreatta